domingo, 23 de fevereiro de 2014

Direitos das mulheres, dos índios e afirmação do negro no segundo dia do Seminário da Igualdade

Promovido pela Comissão Nacional de Promoção da Igualdade do Conselho Federal da OAB, com apoio da Seccional, o I Seminário Sul-americano de Promoção da Igualdade reúne autoridades do governo federal e estadual, conselheiros federais e da Seccional, advogados e acadêmicos durante três dias para discutir a promoção da igualdade racial, de gênero e a luta contra a homofobia e a causa indígena.
O ciclo de debates começou nesta quinta-feira (20) e contou com um auditório lotado por advogados, acadêmicos e militantes em defesa do negro e das mulheres. Para a presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB-BA, Eunice Martins, o evento foi viabilizado por uma articulação da presidente da Comissão Nacional de Promoção da Igualdade, Silvia Cerqueira, com a Seccional. "É muito importante porque está chamando pessoas de todas as classes e segmentos com o objetivo de estimularem-se com as palestras e saírem daqui com elementos de reflexão", ressaltou Eunice Martins.
O secretário Especial de Promoção da Igualdade da Presidência da República, Ministro Edson Santos, destacou o papel da OAB no âmbito da promoção da igualdade. "A possibilidade de ter a atenção dos advogados em um seminário internacional, tratando deste tema e atraindo operadores do Direito na América do Sul, é fundamental. Acho que ajuda o país no âmbito multilateral, que ele vem liderando, de políticas de promoção da igualdade racial" .
Debates
Os três primeiros painéis realizados durante a manhã abordaram temas como "Promoção dos direitos da Mulher" , "Ações Afirmativas e o Instituto da Reparação" e "Educação, Cultura e Estado Democrático de Direito". Convidados para participar das mesas, estiveram presentes nomes como, Cléa Capri, Secretária-Geral do Conselho Federal da OAB; a superintendente de Políticas para Mulheres da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade, Valdecir Nascimento e a representante da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Kátia Guimarães, o Secretário-Geral da OAB-BA, Antônio Menezes; a Secretária Estadual de Promoção da Igualdade, Luiza Barros; o diretor da Escola Superior de Advocacia, Carlos Rátis, e o diretor do Memorial dos Povos Indígenas e coordenador do Fórum Indígena Internacional sobre Biodiversidade, Marcos Terena.
A secretária-Geral da OAB,Cléa Capri, apresentou uma retrospectiva dos direitos conquistados pelas mulheres são longo da história, destacando a luta travada para a conquista dos direitos. "Em 1953 foi feita a primeira convenção que garantiu os direitos políticos das mulheres. Após uma longa caminhada, em 1993, a ONU declarou que os direitos das mulheres e crianças são inalienáveis."
Para Kátia Guimarães o processo de garantia dos direitos das mulheres não foi fácil pois sempre houve relações desiguais entre homens mulheres."Não podemos centralizar a violência contra a mulher somente na questão física, mas em todos os tipos de violência que podem perpassar naturalmente no nosso cotidiano sem serem percebidos como violência contra as mulheres, como assédio moral, assédio sexual e violência psicológica.
Lei Maria da Penha e o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher são importantes ações para mudar esse cenário", colocou Guimarães. Valdecir Nascimento considera que a Lei Maria da Penha é uma medida protetora às mulheres, pois ela garante que o agressor seja punido e mantido afastado da vítima."Infelizmente o número e mulheres que manifestam sua indignação diante da violência sofrida por outras ainda é muito pouco", lamentou a superintendente.
Para secretária estadual de Promoção da Igualdade o racismo sempre está pronto e preparado para receber uma pessoa negra em qualquer lugar que ela ocupe. "Essa é a característica do racismo: ele é um fenômeno elástico. Por isso que nós temos que discutir o racismo se quisermos efetivamente promover a igualdade" afirmou Bairros.
O presidente da Comissão do Negro da OAB-SP, Marcos Zito, falou sobre a necessidade de afirmação do negro na sociedade, questionando: "será que não temos nenhum bom economista negro? Nenhum bom advogado negro para ser Secretário da Justiça? Para ocupar um lugar de destaque e servir principalmente de paradigma para as nossas crianças?" .
O índio Marcos Terena, da Tribo Terena da região do Pantanal, após saudar os partipantes do seminário em seu idioma natal, lembrou que os negros e índios têm caminhado juntos, há muito tempo. "Quando Zumbi dos Palmares fugiu, quem acolheu ele foram os índios revolucionários".
Terena pontuou que a OAB deve promover o Direito Indígena. Para ele, a luta pelos direitos de um determinado segmento deve ser travada e representada por seus iguais. "As mulheres estão representadas no governo por mulheres, os negros estão representados por negros e por que os índios estão representados por um antropólogo branco? Queremos o Ministério do Índio", afrimou o diretor do Memorial dos Povos Indígenas.
Fonte: Imprensa OAB-BA

42,3% das universidades federais do país têm cotas para negros e índios

Levantamento feito pelo G1 mostra que, das 59 universidades federais do país, 36 oferecem algum tipo de ação afirmativa de reserva de vagas no processo seletivo. Destas, 25 têm algum tipo de cota racial para negros, pardos e/ou índios. O número corresponde a 42,3% do total das instituições. Nesta quinta-feira (26), oSupremo Tribunal Federal (STF) considerou constitucional a adoção de políticas de reserva de vagas para garantir o acesso de negros e índios a instituições de ensino superior em todo o país (veja vídeo).
COTAS NAS UNIVERSIDADES FEDERAIS
36 das 59 universidades federais têm políticas de cotas raciais e/ou sociais
32 têm cotas para estudantes oriundos de escolas públicas
25 têm algum tipo de cota racial
21 têm cotas para negros e pardos
19 têm cotas para índios
7 têm cotas para deficientes
1 tem cota para quilombolas
De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério da Educação, cada instituição federal tem autonomia para decidir se vai ou não adotar uma política de ação afirmativa. As cotas podem ser raciais (para negros, pardos e índios), sociais (para oriundos de escolas públicas e deficientes físicos) ou uma combinação dos dois modelos, ou seja, dentro da cota de vagas para estudantes vindos de escolas públicas são reservadas vagas para negros, pardos e índios. Em geral, para entrar nesta cota, basta que o estudante se autodeclare negro ou pardo.
Um total de 32 universidades federais reserva uma porcentagem das vagas para candidatos egressos da rede pública de educação básica, ou seja, esses candidatos só competem diretamente com outros estudantes na mesma situação. Em algumas delas, a porcentagem de reserva chega a até 50% do total de vagas, caso da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Pernambuco, e da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul.
Negros, pardos e índiosEstudantes negros ou pardos são contemplados em políticas de ação afirmativa de 21 instituções. Os indígenas também são contemplados por cotas em 19 processos seletivos nas universidades vinculadas ao MEC. Em alguns casos, como nas federais do Paraná (UFPR) e Roraima (UFRR), há um vestibular específico para indígenas. Em outros, como na Federal do Amapá (Unifap), são oferecidos cursos exclusivos para esse grupo, como a licenciatura intercultural indígena. A Universidade Federal de Goiás (UFG), além de cotas para negros, pardos e índios, é a única do país com cota para estudantes quilombolas.

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DITADURA CRIOU CADEIAS PARA ÍNDIOS COM TRABALHOS FORÇADOS E TORTURAS

Durante os anos de chumbo, após o golpe de 1964, a Fundação Nacional do Índio (Funai) manteve silenciosamente em Minas Gerais dois centros para a detenção de índios considerados “infratores”. Para lá foram levados mais de cem indivíduos de dezenas de etnias, oriundos de ao menos 11 estados das cinco regiões do país. O Reformatório Krenak, em Resplendor (MG), e a Fazenda Guarani, em Carmésia (MG), eram geridos e vigiados por policiais militares. Sobre eles recaem diversas denúncias de violações de direitos humanos.
Os “campos de concentração” étnicos em Minas Gerais representaram uma radicalização de práticas repressivas que já existiam na época do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – órgão federal, criado em 1910, substituído pela Funai em 1967. Em diversas aldeias, os servidores do SPI, muitos deles de origem militar, implantaram castigos cruéis e cadeias desumanas para prender índios.
Os anos desde o fim da ditadura pouco contribuíram para tirar da obscuridade a existência dos presídios indígenas. Um silêncio que incomoda novas lideranças como Douglas Krenak, 30 anos, ex-coordenador do Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais (Copimg). “Em 2009, recebi um convite para participar das comemorações, em Belo Horizonte (MG), dos 30 anos da Anistia no Brasil. Havia toda uma discussão sobre a indenização dos que sofreram com a ditadura, mas a questão indígena não foi nem sequer lembrada”, reclama.
Douglas é mais um entre os que têm histórias familiares de violência física e cultural sofridas nesse período. “Meu avô foi preso no reformatório Krenak”, conta. “Chegou a ser arrastado com o cavalo de um militar, amarrado pelos pés”.
Para a pedagoga Geralda Soares, ex-integrante do Conselho Indigenista Missionário em Minas Gerais (Cimi/MG), é fundamental reparar a dívida com os indígenas vítimas de violências no período – que, acredita ela, não difere daquela reconhecida como direito de outros grupos que sofreram nos porões da ditadura. “Muitos desses índios, na minha concepção, são presos políticos. Na verdade, eles estavam em uma luta justa, lutando pela terra”, defende. Não existe, no Brasil, nenhum indivíduo ou comunidade indígena indenizado pelos crimes cometidos pelo Estado nessas áreas de confinamento.
“Se cabe para os outros, porque não cabe para os índios?”, questiona Maria Hilda Baqueiro Paraíso, professora associada da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ela lembra que há relatos de pessoas desaparecidas após ingressarem em tais locais, cujos familiares vivem até hoje sem qualquer tipo de resposta do Estado ou política de reparação.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV), instalada pelo governo federal em maio de 2012, definiu os crimes contra camponeses e indígenas como um dos seus 13 eixos de trabalho. O balanço de um ano de atividades da CNV, divulgado recentemente, informa que a existência de prisões destinadas a índios é um dos seus objetos de pesquisa. A Agência Pública entrou em contato para saber mais detalhes sobre as apurações que estão sendo realizadas, mas a Comissão não se pronunciou.

ESPANCAMENTOS E TRABALHOS FORÇADOS NO “CENTRO DE REEDUCAÇÃO” KRENAK

Em 1965, o combalido Serviço de Proteção aos Índios (SPI), afundado em denúncias de inoperância e corrupção, começou a negociar um convênio com o governo de Minas Gerais, através do qual o Executivo estadual assumiria a incumbência de garantir a ordem e a assistência às aldeias locais. O acordo foi ratificado posteriormente pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967. Assim nasceu Reformatório Agrícola Indígena Krenak, um “centro de recuperação” de índios mantido pela ditadura militar no município de Resplendor (MG).
Sem alarde, o reformatório – por vezes também chamado de Centro de Reeducação Indígena Krenak – começou a funcionar em 1969 em uma área rural dentro do Posto Indígena Guido Marlière. As atividades locais eram comandadas por oficiais da Polícia Militar mineira, que, após o estabelecimento do convênio, assumiram postos-chave na administração local da Funai.
Nos anos seguintes, foram enviados para lá mais de cem índios, pertencentes a dezenas de comunidades. Um mosaico de etnias que incluía desde habitantes do extremo norte do país, como os índios ashaninka e urubu-kaapor, a povos típicos do sul e do sudeste, como os guaranis e os kaingangs.
Até hoje, muito pouco se divulgou sobre o que de fato acontecia no local. “O reformatório não teve sua criação publicada em jornais ou veiculada em uma portaria”, escreve o pesquisador José Gabriel Silveira Corrêa, autor de um dos poucos estudos sobre a instituição. “Seu funcionamento e a própria ‘recuperação’ lá executada passavam pela manutenção do sigilo”.
Em 1972, o então senador pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) – partido de sustentação da ditadura – Osires Teixeira, se pronunciou sobre o tema na tribuna do Senado, em uma poucas manifestações conhecidas de agentes do Estado sobre o reformatório. Afirmou que os índios levados ao Krenak retornavam às suas comunidades com uma nova profissão, mais conhecimentos e saúde e em melhores condições de contribuir com o seu cacique. “O Brasil tem sido vítima de ignóbeis explorações de sua política indigenista por órgão da imprensa no exterior, quando, na verdade, todos sabemos que o Brasil foi o único país do continente que, para a conquista de sua civilização, jamais dizimou tribos indígenas”, afirmou Teixeira.
Relatos atuais de ex-presos e familiares, no entanto, revelam uma realidade muito diferente daquela descrita pelo senador da Arena.

TRABALHO ESCRAVO

A sede do reformatório possuía duas edificações. Numa delas ficava a administração, o almoxarifado e o alojamento dos guardas. Já a outra era o reformatório propriamente dito. Dispunha de cozinha e refeitório, além de duas celas individuais, dois confinamentos coletivos e dois cubículos para detenção – estes últimos destinados a encarcerar quem cometesse faltas graves no dia a dia correcional.
Pela manhã, após o desjejum, os “confinados” – jargão utilizado para designar os índios – eram levados para trabalhos rurais, que prosseguiam também depois do almoço. No fim do dia, numa rotina tipicamente prisional, eram postos para dormir após o banho e o jantar coletivo.
“Íamos até um brejo, com água até o joelho, plantar arroz”, revela Diógenes Ferreira dos Santos, índio pataxó levado ao Krenak em 1969. “Botavam a gente para arrancar mato, no meio das cobras, e os guardas ficavam em roda vigiando, todos armados”, complementa João Batista de Oliveira, conhecido como João Bugre, da etnia krenak. A região onde foi instalado o reformatório era habitada pelos índios krenaks, e muitos de seus representantes também foram presos.
A reportagem da Agência Pública teve acesso a diversos documentos produzidos pelos policiais que comandavam as atividades do reformatório – ofícios, telegramas e fichas individuais que acompanhavam, mês a mês, o comportamento dos presos. Uma dessas fichas, de um índio da etnia karajá, descrito como lerdo e preguiçoso, deixa claro a obrigatoriedade dos trabalhos braçais. “É um elemento fraco, parecendo até mesmo ser um retardado. Se pudesse, não faria nenhum serviço.”
Outras formas de tratamento degradante, como, por exemplo, escassez no fornecimento de comida, calçados e vestimentas, também estão explicitadas nesses ofícios. “À tarde eles chegam do serviço, tomam banho e vestem a mesma roupa molhada de suor”, escreve o cabo da PM Antônio Vicente, então chefe do Posto Indígena Guido Marlière, em telegrama de 1971, pedindo providências a seus superiores.
Em 1972, outro comunicado informa que se esgotaram todos os alimentos locais. “Os índios confinados estão se alimentando de pura mandioca e inhame. Considerando-se a precariedade da alimentação, serão suspensos os trabalhos braçais.”

CRIME E CASTIGO

Homicídios, roubos e o consumo de álcool nas áreas tribais – na época fortemente repreendido pela Funai – são alguns dos motivos alegados para a transferência de índios ao Krenak. Além disso, os documentos do órgão também citam brigas internas, uso de drogas, prostituição, conflitos com os chefes de posto, indivíduos penalizados pelo “vício de pederastia” e atos descritos, não raro de forma bastante vaga, como vadiagem.
Segundo os registros oficiais, alguns índios permaneceram por mais de três anos e havia indivíduos sobre os quais desconhecia-se até o suposto delito. “Não sabemos a causa real que motivou o seu encaminhamento, uma vez que não recebemos o relatório de origem”, escreve o cabo Vicente, ao escritório central da Ajudância Minas-Bahia da Funai, a respeito de um xavante, considerado de bom comportamento, que lá estava há mais de cinco meses.
“Uma das histórias contadas é a de dois índios urubu-kaápor que, no Krenak, apanharam muito para que confessassem o crime que os levou até lá”, explica Geralda Chaves Soares, que trabalhou do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Minas Gerais, e atua como pesquisadora da história indígena no estado. “O problema é que eles nem sequer falavam português”.
Surras com chicotes e o confinamento em solitária eram outros castigos aplicados, segundo os relatos colhidos pela pesquisadora.
Se comunicar em língua indígena, diz o ex-preso João Bugre, era terminantemente proibido. “Você era repreendido, pois os guardas achavam que a gente estava falando deles”, lembra. Situação ainda mais difícil para aqueles que não sabiam português. “Tinha que aprender na marra. Ou falava, ou apanhava”.
Bugre foi preso em 1970. O registro sobre o caso, descrito nos documentos da Funai, afirma que ele transportou cachaça para dentro da aldeia e se embriagou com outros índios. “João Bugre está insuportável pelas desobediências que vem cometendo. Já faz juz a um confinamento e está detido em alojamento separado”, relata o documento.
“Muitos, como eu, não tinham feito nada. Tomei uma pinga. Será que uma pinga pode deixar alguém preso quase um ano?”, questiona ele. Bugre afirma ter ficado preso no reformatório por cerca de nove meses.
Além do consumo de bebida, também sair da área do posto indígena era considera uma falta grave. “Meu avô chegou a ser arrastado com o cavalo de um militar, amarrado pelos pés, porque tinha saído da aldeia”, revela Douglas Krenak. “Eu, uma vez, fiquei 17 dias preso porque atravessei o rio sem ordem, e fui jogar uma sinuquinha na cidade”, rememora José Alfredo de Oliveira, também índio Krenak.
São exemplos do comportamento comumente classificado como “vadiagem” pelos representantes do órgão indigenista na época. Até mesmo atividades tradicionais de caça e pesca fora dos postos indígenas – não raro pequenos e impróprios para prover a alimentação básica – podiam, segundo relatos, levar índios a temporadas correcionais.
Via de regra, os presos lá chegavam a pedido dos administradores regionais das áreas indígenas. Mas, em alguns casos, por ordem direta de altos escalões em Brasília. É o caso de um índio canela encaminhado à instituição em julho de 1969. “Além do tradicional comportamento inquieto da etnia – andarilhos contumazes –, o referido é dado ao vício da embriaguez, quando se torna agressivo e por vezes perigoso. Como representa um péssimo exemplo para a sua comunidade, achamos por bem confiá-lo a um período de recuperação na Colônia de Krenak”, atesta ofício emitido pelo diretor do Departamento de Assistência da Funai, Lourival Lucena.

CONFLITOS DE TERRA

O depoimento do pataxó Diógenes Ferreira dos Santos sugere um outro motivo para a prisão de indígenas no reformatório Krenak.
Em meados da década de 1960, ele era apenas uma criança no dia em que, conforme conta, viu dois policiais chegando à Reserva Indígena Caramuru – um vasto território de Mata Atlântica, no sul da Bahia, tradicionalmente ocupado pelos pataxós. Vieram acionados por um fazendeiro, que reclamava ser o dono daquele local. “Tinha uma árvore ali em frente (onde Diógenes vivia com seus pais), e eles cravejaram de bala. Depois mandaram tirar tudo o que tinha dentro da nossa casa, e meteram fogo nela”, diz.
Sua família migrou então para uma área próxima, onde viveram “de favor” por cinco anos, instalando benfeitorias para um fazendeiro. Até o dia em que o pretenso proprietário vendeu o local, deixando-os novamente desalojados.
“Já que não tínhamos apoio de ninguém, decidimos voltar ao Caramuru”, conta Diógenes. Expulsaram o novo ocupante local, mas 15 dias depois novamente apareceram policiais, dessa vez incumbidos de levar, Diógenes e seu pai, até a cidade mais próxima. “Disseram que o Capitão Pinheiro (Manoel dos Santos Pinheiro, chefe da Ajudância Minas Bahia da Funai) estava nos esperando”, lembra. “Ficamos então seis dias presos na delegacia de Pau Brasil (BA), até que veio a ordem de nos levarem para o Krenak”.
Nessa época, Diógenes era adolescente. Por ironia do destino, ainda viveu para ver a Funai lhe dar razão em seu pleito. Em 1982, o órgão entrou com uma ação pedindo a declaração de nulidade de todas as propriedades de não índios instaladas dentro da Reserva Indígena Caramuru. Após anos de disputa judicial, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em maio de 2012, a favor dos índios.
Mesmo assim, Diógenes ainda sofre com esse passado. “Eu não gosto nem de falar, porque me dá ódio. É difícil estar preso por um erro. Trabalhando para sobreviver, ir pra cadeia?”, questiona.

DESAPARECIDOS

Algumas mulheres krenaks, que chegaram a ser recrutadas pelos policiais da Funai para trabalhar no reformatório, também são tertemunhas das violências desse período. “Quem fugia da cadeia sofria na mão deles”, afirma Maria Sônia Krenak, que foi cozinheira no local.
Além dos espancamentos, há relatos sobre perseguições acompanhadas de tiros, e de presos que nunca mais foram vistos. “Saiu um bocado ali que não voltou mais”, revela.
Um dos desaparecidos é Dedé Baenã, ex-habitante de terras no sul da Bahia, cujo sumiço é confirmado pelo depoimento de índios e não-índios. Ofícios da Funai afirmam que, em agosto de 1969, ele foi levado ao Krenak a pedido de um funcionário do órgão. O documento o qualifica como um “índio problema”, violento quando embriagado e dono de vasto histórico de agressões a “civilizados”.
Maria Hilda Baqueiro Paraíso, professora associada da Universidade Federal da Bahia (UFBA), realiza pesquisas há décadas junto a comunidades indígenas da região. E revela uma versão diferente para a prisão de Dedé Baenã. “Foi numa ocasião em que o Capitão Pinheiro esteve na Bahia anunciando a suspensão da assistência aos índios locais. Dedé se revoltou e fez um discurso contra a administração do órgão. Saiu de lá já preso”, conta.
Após ingressar no reformatório, ele nunca mais foi visto. “Diz-se que ele teria sido executado por um militar que fazia a segurança dos índios presos na área Krenak”, comenta um indígena que vive na região onde Dedé nasceu.

Ser Índio no Sul da Bahia virou crime! E a sentença é a morte!

A violência contra nós Tupinambá continua! O fato de sermos indígenas virou crime! E a sentença é dada sem haver julgamento, basta ser indígena ou apoiar os Tupinambá para já estar condenado. Nesta semana houve vários casos de violência contra nós Tupinambá. No dia 03 de Setembro um índio foi assassinato e tem tido várias tentativas de assassinado contra indígenas aqui na região. Inclusive algumas de nossas Lideranças sofreram atentados de morte. Pistoleiros têm rondado a nossa área. O terror continua!!!

Ontem dia 05 de Setembro de 2013, o professor Edson Kayapó, coordenador da Licenciatura Intercultural Indígena do Instituto Federal da Bahia (IFBA), mesmo não sendo Tupinambá, só pelo fato de ser indígena foi espancado e só não foi assassinado pois a arma falhou!!! Tudo isso aconteceu em Buerarema, e este crime foi cometido pelos Jagunços dos supostos pequenos agricultores, contrários à demarcação de nossa Terra Tradicional.

Onde estava a Força Nacional neste momento?

Antes disso, o professor Edson Kayapó, tinha passado por outra violência na Cidade de São José da Vitória, quando o carro onde estava foi parado por manifestantes induzidos pelos supostos pequenos agricultores atearam fogo no carro onde estava juntamente com outros professores que inclusive estavam aqui em Tupinambá fazendo atividades com os professores indígenas Tupinambá que estão cursando o LINTER.

Índios fazem protesto por demarcação de terras na região de Ilhéus, na Bahia


Índios da tribo Tupinambá de Olivença realizam uma manifestação na BA-001, próximo à cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, na tarde desta segunda-feira (18). De acordo com o cacique Sival Magalhães, dentre outros pontos, o grupo pede a demarcação imediata do território indígena.
"Nós estamos reivindicando a demarcação do território Tupinambá de Olivença, que fica em Ilhéus, em uma área de 346 mil hectares. Nós queremos audiência com o Ministério da Justiça para discutir a demarcação. Também queremos melhoria nas estradas que ligam à aldeia", relata o cacique.
Segundo Sival Magalhães, cerca de 300 indígenas participam da manifestação. No entanto, a Polícia Rodoviária Estadual (PRE) afirma que 100 pessoas fazem parte do ato. O grupo bloqueou os dois sentidos da via com pneus e madeira. Por conta do protesto, o tráfego de veículos é lento no local, informou a PRE.